sábado, 14 de abril de 2012

Rafael

     Os dias estão cada vez mais conturbados. O nascimento de crianças ainda ocorre em número elevado e superior ao número de mortes. O treinamento de anjos da guarda é constante. A cada leva nova de anjos que chega vem junto o sentimento de início da jornada. Explicar o funcionamento do mundo, as regras de Deus e as consequências do balanço entre causa e efeito. Explicar que devem cuidar dos novos filhos do Pai com doçura e firmeza.
     Rafael era um arcanjo responsável por essa tarefa desde o início dos tempos. Se sentia renovado a cada turma que iniciava. E, se sentia demasiadamente feliz quando completava sua tarefa e entregava a missão aos anjos.
     Rafael sentou-se a fim de apreciar o brilho das estrelas e o amanhecer de um novo dia. O céu estava particularmente belo naquele amanhecer, como se o dia que se descortina fosse tão especial que merecia uma introdução a altura. De repente, uma conversa na Terra lhe chama a atenção.
   
     _ Mamãe quando o meu dente cair o anjo vai colocar uma moeda debaixo do meu travesseiro.
     _ Que história é essa menina? 
     _ Mamãe, eu ponho o meu dente debaixo do meu travesseiro. O anjo vem e guarda o meu dente
        e  deixa uma moeda.
     _ Quem te contou isso?
     _ Foi minha colega, na hora da prece. Ela me disse que isso aconteceu com ela, amanhã.
     _ Você quer dizer ontem.
     _ É mãe, ontem.
     _ E se o anjo não trouxer. O que você vai fazer?
     _ Eu nunca mais acredito em anjos.
     _ Minha filha, anjos não fazem isso.
     _ Mas, mas, mas, ... Ele fez para a Gabriela. Porque não vai fazer para mim?
     _ Minha filha, eu te amo e os anjos também. Fique calma.

     Rafael achou aquela menina muito inteligente e quis conhecê-la melhor. Apurou que seus pais se separaram quando ela tinha dois anos e que logo depois seu tio querido falecera. Ela tem apenas cinco anos, é muito sensível e que sente quando alguém precisa de carinho - e por isso acaba por abraçar estranhos na rua. A menina é muito levada, se machuca toda hora. A mãe dela é muito ligada à ela, devido a todas as dificuldades que envolveram a gravidez e o parto.

     Rafael se apaixonou por aquela menina. Decidiu ser seu novo anjo da guarda. Tomado dessa decisão dirigiu-se ao conselho de arcanjos e solicitou a troca. Ponderou colocando as dúvidas de uma menina, tão pequena e sensível. Explicou a necessidade de um anjo especial para aquela menina tão esperta. Demonstrou sua paixão pelo amor dela à humanidade. Conseguiu seu intento.

     _ Mamãe, meu dentinho caiu!
     _ E você guardou filha? 
     _ Coloquei debaixo do meu travesseiro.
     _ Não minha filha. Me dê, eu quero guardar.
     _ Mas, mãe. Eu quero o dinheiro.
     _ O que você vai fazer com o dinheiro? 
     _ Vou te dar. Sei que você está precisando. Você está desempregada.
     _ Ah! Minha filha! Não precisa.
     _ Eu quero mãe.
     _ Tá bom, pode colocar.

     No meio da noite a mãe foi pegar o dentinho e fazer a troca. Ela teve uma surpresa. A troca já tinha sido feita.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Diário da Enfermeira Matilda


Personagens:
Gustavo - menino de sete anos, quieto, apático e calado.
Sr. Astolfo - velho de 99 anos, rabugento - reclama de dores o tempo todo, tem artrose, labirintite e usa bolsa de colostomia.
Mariana - mulher de 42 anos, nervosa, em TPM constante, sem vaidade e hipocondríaca.
Sr. Oswaldo - homem de 62 anos, metódico, arruma tudo o tempo todo e não gosta de sair de casa.
Gisele - mulher de 36 anos, bonita, artística, talentosa e vive à espera do noivo que não chega.

Matilda - Enfermeira de 45 anos, cuida dos pacientes: Gustavo, Sr. Astolfo, Mariana, Sr. Oswaldo e Gisele. Está nessa atividade há 20 anos, não se casou, não tem filhos e não vê a família.

Claudia - menina de 18 anos, revoltada com a família por diversas imposições, foge de casa. Os pais, sem saber o que fazer, a internaram.


Acontecimentos:
Cinco horas da manhã de mais um honrado dia de Nosso Senhor. Obrigada, Pai, por eu ter um trabalho e uma casa para morar. Pronto! Levantar-me-ei!

Sei que estou nessa rotina há 20 anos. Sei que não vejo a minha mãe há muito tempo. Sei que, por causa desse trabalho, não tive a oportunidade de me casar. Mas, agradeço, Senhor, por estar viva, ter uma casa - quase não fico nela - e um emprego.

Sete horas. Graças a Deus, consegui chegar na hora do início do meu plantão na Clínica Coração Feliz. Não sei se os corações estão felizes. Não sei se o meu coração está feliz.

Enfermeira: _ Bom dia, Gustavo! Vejo que conseguiu pegar o carrinho que caiu atrás da estante. Interessante como você gosta desse brinquedo. No seu aniversário, vou lhe dar um caminhão vermelho dos bombeiros. Você quer? (Silêncio) Como vou saber?

Enfermeira: _ Bom dia, Sr. Astolfo! Sua bolsa está cheia. Já venho trocá-lo. Volto logo! Não levo nem meia-hora. Calma, Sr. Astolfo! Eu sempre cumpro com o que falo, e o senhor sempre reclama.

Enfermeira: _ Bom dia, Mariana! Quer que eu penteie seus cabelos hoje? Não! Todos os dias, você me nega, mas não desisto de você. Já sei, sua cabeça dói e alguém mexeu nas suas coisas. Falarei novamente com os outros.

Enfermeira:_  Bom dia, Sr. Oswaldo! Tudo certo hoje?  Pelo que pude notar o senhor está com a camisa amarela própria das quintas-feiras. Ah! Deixou-a passada para ser usada hoje. Então, vamos dar uma volta no jardim? Não! Me negou de novo. Qualquer dia, eu consigo.

Enfermeira:_  Bom dia, Gisele! Que passo lindo o seu! É de qual ballet? Copélia. Eu devia ter imaginado. Que tal irmos ao Municipal no sábado? Não pode! De novo! Já sei, seu noivo pode vir a chegar. Vamos na próxima oportunidade.

Enfermeira: _ Bom dia, menina! Quem é você?
_ Meu nome é Claudia.
Enfermeira: _ Prazer, sou a enfermeira Matilda. Deixe-me examinar a sua ficha e verificar os motivos da internação. Esquizofrenia, tentativa de suicídio, drogas. Essa é você?
_ Não. Meus pais me colocaram aqui devido eu ter tentado fugir de casa. Quero a vida. Quero ser feliz. Quero viajar, estudar. Mas eles só permitem que eu siga ordens.
Enfermeira: _ Você tem certeza disso? Seus pais te amam? Pais sempre amam os filhos.
_ Eu sei. Mas, é um amor sufocante. Eu quero ser livre. Me ajuda.
Enfermeira: _ Como?
_ Me deixa sair.

Nisso, Gustavo, Sr. Astolfo, Mariana, Sr. Oswaldo e Gisele, todos olharam para a enfermeira Matilda. E Matilda também se assustou.

Enfermeira: _ Eu não posso!
Todos: _ É muito perigoso.

Enfermeira:_ Eu não devo!
Todos: _ Você pode ser assaltada.

Enfermeira:_ Eu posso ser demitida!
Todos: _ Você pode se machucar.

Claudia: _ Chega! Eu não me importo com o que possa me acontecer. Eu quero viver.

Nesse momento, foi como se um nó fosse desatado das mãos e pés da enfermeira Matilda. Pegou a menina Claudia pela mão e saiu da clínica onde os corações não são felizes.



Escrito por Simone da Silva Figueiredo
Livremente inspirado numa carta de Claudia Mazzolino
(08/03/2012)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um grão entre mil


Na cozinha da chácara o café é coado de manhã bem cedo. A mesa está posto o pão, a cuca de chocolate e a chimia de framboesa. O leite já fervido também ajuda a formar o coquetel de odores e sabores da manhã. Todos adentram a cozinha, marido, filho, filhas. Ela sabe que terá muito trabalho no dia de hoje, como em todos os dias, mas aproveita a cena por alguns segundos orgulhosa da família que formou. Então, leva o bule de café para a mesa.

Após muita balbúrdia, após o vanerão das xícaras, colheres, manteiga que dançaram sobre a mesa a fim de atender a todos, eles se foram. O silencio se instala novamente na cozinha. Cabe-lhe a tarefa de recolher tudo, lavar a louça, separar a carne do almoço. Tarefas rotineiras executadas com o prazer de ver o marido forte ir trabalhar e os filhos crescidos irem para a escola.

Em meio a tudo igual, o seu peito se aperta. Ela chega à porta da casa e vê sua irmã se chegando pelo caminho. O semblante estava pesado. Ela se preocupa e ansiosa caminha até a irmã. O seu alívio é tão grande quando a irmã lhe acalma dizendo que todos em sua família estão bem, que ela mal escuta o resto da história. Quando retoma a ciência das coisas, a irmã está lhe contando que o irmão delas se uniu a uma moça, mas que as crianças estão em situação de emergência por falta de alimentos.

As duas irmãs vão para a casa da chácara, apenas para deixar um bilhete, pegar dinheiro e alguns cobertores. Era uma manhã muito fria. Elas chegam ao local de morada do irmão e conhecem a cunhada. Esta informa não ter condições de criar as crianças e que o irmão delas não vinha para casa há muito tempo. A conversa é curta, a moça passa a guarda dos dois meninos a elas, as tias.

Sua irmã pega rapidamente com um dos cobertores o menino mais novo, de apenas seis meses. Ele estava muito magro e ela o protege. Para ela, olha de repente, um menino tímido, que tenta sanar sua curiosidade sobre as mulheres e se proteger na saia da mãe. O menino de um ano e meio sente medo do que não sabe. Ela vendo tudo isso nos olhos do menino se aproxima com cautela. Não quer espantá-lo. Ele, o menino, vendo o cuidado dela e tomado de curiosidade, sorri. É a senha para que ela se aproxime, o coloque dentro de um cobertor e em seus braços.

Ao chegar a casa, ela verifica espantada que o seu anjinho estava pequeno e magro. Ele ardia em febre. Ela improvisou um berço para ele numa das gavetas da cômoda e lhe preparou um caldo de galinha. E quando o anjinho adormeceu, ela rezou. Ela rezou por três dias consecutivos, o tempo da febre. Ela se interpôs na frente do marido, defendendo a criança e a nomeando de presente de Deus.

Seu anjinho cresceu, quebrou o braço, foi para a escola e tirou notas altas. Como todos os anjinhos fez birra, mas também deu muito orgulho. Um dia o anjinho voou para longe, foi morar em outra cidade.

Após quase trinta anos da chegada do anjinho em sua casa, numa tarde de primavera chegou outro anjo. O segundo anjo era uma moça já crescida. Diferente fisicamente dela, ela tinha olhos azuis e o anjo olhos negros, ela cabelos ralos e lisos e o anjo cheios e cacheados. A pela dela era alva e do anjo era negra. Ela falava alemão e o anjo falava português. As duas passaram dois dias juntas. Na linguagem do coração se entenderam e ficaram amigas.

O anjo de pele negra sou eu. Ela era a minha sogra. Contou-me essa história e me mostrou a gaveta-berço e me disse o quanto amava o filho-anjo. Mas, o verdadeiro anjo é essa senhora que amou, criou e deu seu coração a mais um filho.

Autor: Simone da Silva Figueiredo
(Escrito em 04 de janeiro de 2012)


sábado, 24 de dezembro de 2011

Um anjo para mim


Quando eu tinha por volta dos meus 20 anos eu me enamorei.  ... Eu me enamorei por duas mulheres.

Deixa eu me apresentar primeiro, meu nome é... .  Na realidade, meu nome não importa, então deixemos isso para lá. O que importa é quem eu fui e as pessoas que conheci.

Nasci numa família judia. Filho de pai e mãe judia, família influente no bairro de residência, seguia o protocolo. Ia ao templo, jejuava, fazia meus estudos da Cabala e lia diariamente, religiosamente, a Torá.
Minha vida era boa, sendo eu filho único de uma família abastada, nada nunca me faltava. Vivia como era o esperado e mamãe estudava com qual menina judia, frequentadora assídua da sinagoga, ela iria arquitetar meu casamento. Meu pai escrevia o meu futuro, eu iria substituí-lo a frente dos negócios. Seria no futuro o Senhor Meu Pai num novo corpo.

Certo dia, eu conheci Valéria no retorno do colégio, meus olhos brilharam. Ela era tão linda, meiga, gentil, educada. Valéria era tudo que eu queria e precisava. Valéria só tinha um defeito, não era judia. Mesmo assim apresentei-a ao meu pai. Acreditei haver compreensão no core paterno pelo meu desejo de quebrar uma regra tão importante. O judeu é filho de judia. Enfrentei a minha família e pedi, ao pai de Valéria, ela em namoro.

O tempo ao lado de Valéria era doce. Menina de coração puro e bom tinha sonhos de ajudar o mundo. Encantava-me a atenção que ela dispensava a todos que necessitavam. Não tinha criança enjeitada que dela não tinha um abraço. Não tinha idoso sem família que nela não encontrava uma neta. Nem os animais ela os largava a própria sorte. Valéria vê as qualidades nas pessoas ao lhes observar o coração. Via em mim o homem que eu desejava ser: respeitável, amável, pai de família e, acima de tudo, bom.

Logo depois conheci Margareth. Mulher mais experiente e com um filho. Deixei-me enlaçar por uma teia recheada de desejos carnais não antes experimentados por mim.

Fiquei balançado entre a doce Valéria e a caliente Margareth. A luxúria e não a razão me fez escolher a última. Claro que meu pai não apoiou a decisão. De todos os possíveis erros que cometeria na comédia de minha vida esse era sem a menor dúvida o mais gritante, segundo o olhar paterno naquele momento e o meu atualmente.

Uni-me a Margareth, criei seu filho, vivi longe de minha família, adoeci e fui abandonado. Tudo em pouco tempo. Fui deixado em um asilo, um manicômio.

Valéria, àquela quem abandonei, me procurou. Soube por alguém que estava doente. Valéria tomou ciência de minha condição física, psicológica e emocional. Valéria me resgatou do inferno das doenças.

Valéria limpou as minhas feridas, me alimentou, me medicou. Me apaixonei novamente por Valéria. Mas, ela somente tinha olhos para o noivo. Cheguei tarde. Como os jovens de hoje expressam, a fila andou.

Valéria não me abandonou, encontrou a clínica aonde me encontrava internado. Procurou os médicos, rogou por atenção e providências. Conseguiu que uma parenta assumisse a minha condição e os cuidados para comigo.

Hoje, 42 anos depois, estou em condições plenas de funcionamento integral do meu ser. Tenho consciência de tudo que vivi em todas as minhas vidas. Percebo o caminho que deixei de trilhar e o destino de felicidade para qual ele me levaria. Se em vida entendi que perdi a melhor mulher que Deus poderia ter reservado para mim. Na minha morte percebo que me afastei de Deus, me afastando do anjo da guarda que ele me destinou.

Escrevo, agora, do meu novo endereço, uma lápide em um cemitério.

Autor: Simone da Silva Figueiredo
(Escrito em 24 de dezembro de 2011)

sábado, 26 de novembro de 2011

Luiz e Luiza

A estrada que levava à fazenda era bucólica, ladeada de arbustos floridos e oferecia aos viajantes um espetáculo de cores e aromas. A beleza daquele trecho do mundo era tão especial, que mesmo as carruagens aparelhadas com seis bons cavalos diminuiam a sua marcha.

Luiz, um negro que vinha fugindo já há dois meses, caminhava pela estrada tranquilo admirando a beleza que o cercava. Avistou uma casa pequena, sentiu além do aroma das flores o cheiro convidativo do ensopado que estava sendo preparado para o almoço. Não resistiu, resolveu arriscar, a fome era avassaladora, pensou: "A negra velha naquela cozinha há de me ajudar. Ela conhece a minha dor".

Luiz sai da estrada e se direciona à pequena tapera de odor atrativo, vai direto para parte detrás da casa - não queria encontrar com a Sinhá. Ao adentrar a cozinha tem uma surpresa, não encontra uma negra velha à frente do fogão de lenha e sim uma linda e branca jovem.

Luiza era filha única de um pequeno proprietário de terras. Seu pai, viúvo há muitos anos, era o dono de um pequeno sítio sem escravos. Todo o trabalho era feito pelos dois. Luiza devia ter 16 anos, sua pele branca contrastava com o negro dos seus cabelos, lindos olhos amendoados de cílios longos e coloração esverdeada como a esmeralda chamavam a atenção em seu rosto de traços suaves. Ao ver Luiz, a menina-moça se assustou e quase gritou. As mãos de Luiz a impediram.

Luiz ficou paralisado com as mãos sobre os lábios e olhos fixos nos dela. Luiz afogava-se naquele lago de águas esverdeadas e não lutou contra a força que o prendia. Luiza ragiu e Luiz voltou a si. Prometeu soltá-la se não gritasse, ela concordou.

Luiza vivia a maior parte do tempo só. Seu pai trabalhava o dia inteiro. Faziam as refeições juntos, mas não conversavam. Nenhum homem tinha se aproximado tanto do corpo dela. Ela se sentiu zonza com o calor. Ela não conhecia essa sensação, mas gostou.

Luiz há muito tempo não chegava perto de uma mulher e aquela tinha o perfume das rosas da estrada, olhos aonde se podia afogar, o corpo quente e a voz suave. Luiz a beijou.

Luiz e Luiza se entrelaçaram num longo beijo que foi sucedido por outros. Seus corpos se uniram como se Deus os tivesse feito para o amor e esse somente pudesse ser realizado por esses parceiros. Cairam exaustos lado a lado e adormeceram.

Sérgio ficou viúvo muito jovem. Sua esposa faleceu o deixando com uma criança de um pouco mais de um ano. Desde então, se dedicava a criação da filha, aos cuidados com o sítio. As vezes ia à cidade para realizar compras, fazer trocas e desafogar as mágoas na casa das damas. Mas, nenhuma outra mulher foi escolhida como a senhora de sua vida.

Sergio, pai de Luiza, entra na tapera e surpreende os amantes dormindo no chão da cozinha. Parecia que o mundo desabava sob seus pés. Numa fração de segundos retornou ao dia de sua viuvez. Reviu todos os seus dias, todos os sacrifícios para manter o sítio e criar uma filha. Percebeu analisando a cena que a filha não fora forçada. Percebeu que a luxúria tomou conta. Pensou em sua honra, em sua vida e no escândalo. O que tornou seus olhos vermelhos foi pensar em sua honra.

Sérgio pegou a espingarda de caça e atirou na cabeça dos amantes enquanto dormiam. Sérgio atirou em sua própria cabeça.

...

Pelo centro da cidade caminha um rapaz alto e forte. Seu cotidiano frenético é tomado de muitas decisões. Ele caminha pelas ruas cheias de gente apressada falando no seu celular. Sem perceber caminhou para fora da balbúrdia. Olhou em volta e não reconheceu o lugar. Parou de falar ao celular. Sentiu o odor do ensopado vindo de uma taberna convidativa. Percebeu que tinha fome e que não comia tranquilamente há muito tempo. Adentrou a taberna.

A taberna era um restaurante hoje em pleno século XXI, mas no século XIX tinha sido apenas uma tapera com uma triste história de amor assassinado. Servia pratos históricos e a decoração se mantinha a mesma. Ao entrar se via a cozinha.

O rapaz ao entrar se sente transportado no tempo. Vê a cozinheira e seu coração acelera. Tomado de uma emoção completamente nova aproxima-se da cozinheira. Posso lhe falar? Meu nome é Luiz. Ela se vira e responde: Prazer, eu sou Luiza.

Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em 18 e 19 de novembro de 2011)

domingo, 9 de outubro de 2011

Inocência Perdida - Amor encontrado

_ Mamãe, que barulheira é essa tão cedo?
_ Ih, filha! Esqueci de avisar. Os vizinhos novos chegam hoje para ocupar a casa de baixo.

Da janela.
_ Mãe, eles têm tanta coisa. É um casal e tem um menininho com eles. Tão bonitinho parece esperto.
_ Ahammm!
_ Mãe, a moça é bonita. Ela está com uma blusa igual àquela sua.
_ Qual?
_ Aquela florida que a senhora comprou no mês passado.
_ Já sei que é uma moça de bom gosto.
_ Mãe, corre aqui.
_ Que foi, menina?
_ O marido dela é bonitão. Um gato.

As duas olham para o rapaz. A feminilidade presente e a futura apreciam o mesmo espécime.

...

Passa-se as semanas e a rotina se instala novamente. Os novos vizinhos já não são novidade. A vida entra nos trilhos.

A menina pede na segunda, quarta e sexta licença ao rapaz para passar pela área comum das duas casas. Ela precisava chegar à área de serviço. O rapaz está em casa nestes dias e acha tudo normal. O menininho faz uma festa para a menina sempre. Ela é muito paciente e gentil com crianças.

Na casa dos novos vizinhos tudo segue bem. A esposa jovem e bonita sai cedo e volta tarde todos os dias. O rapaz, por ter um horário de trabalho mais flexível, cuida do filho. Leva na creche, vai para o trabalho, busca na creche, faz o jantar. O casal tinha uma vida boa. Isso chamou a atenção.

Na casa de cima, o circo das frustrações encena seu espetáculo habitual. Mãe com três filhos, não tem mais tempo para estar bonita. Pai e marido tem de trabalhar muito para garantir o sustento, não tem mais tempo para ver os encantos da esposa. Filhos, duas crianças arteiras e a mais velha que desperta para a adolescência. O relógio da bomba começa a contagem regressiva.

...

Passa-se semanas e todas as coisas estão no lugar. Não tem mais caixas na sala. O caminho para a creche é feito no automático. A tinta nova já não mais deixa seu cheiro irritante.

A vizinha vem estender a roupa na área comum. É uma menina bonitinha. Meu filho sempre fica muito feliz quando ela chega. Ela sempre brinca com ele cantando músicas que ele gosta. É uma menina nova ainda, acho que tem doze anos, vai ser uma moça linda.

Os vizinhos de cima parecem morar a muito tempo nessa casa. Conhecem todos no bairro. O marido sai cedo e volta tarde, sempre muito cansado. Às vezes trabalha de madrugada. A esposa é bonita, mas não está feliz. Não é fácil cuidar de três sozinha. Eles devem estar casados há muito tempo. Não parecem namorar.

...

Quatro horas.

_ Licença, senhor. Posso estender a roupa. Diz a menina.
_ Claro, esteja a vontade. Diz o rapaz.

...

Mês seguinte, às quatro horas.

_ Licença. Posso estender a roupa. Diz a menina.
_ Claro. Algo mudou em você. Diz o rapaz. O que foi?
_ Não sei, apenas cortei o cabelo.
_ Você fica bem assim. Bonita.

...

A noite, a jovem esposa liga avisando que não virá para casa. Deverá ir à casa de uma tia. Problemas de família à sanar.

Na cama de casal, o rapaz viaja nos pensamentos. A menina é linda. Ela parece uma flor prestes a desabrochar. E sua mente é inundada de pensamentos quentes por aquela jovem.

...

Duas semanas depois, às quatro horas.

_ Tô entrando. Vou estender a roupa.
_ Claro. Posso ver seu rosto. Diz o rapaz.

Ela cora e baixa o semblante. Ele lhe levanta o rosto segurando o queixo. Olhos curiosos o observam. Lábios carnudos o convidam.

Ele a beija. Ela corresponde.

Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em 06/10/2011)

sábado, 1 de outubro de 2011

Uma princesa as avessas.

Era uma vez uma linda menina que nasceu num belo castelo nos Alpes Suíços.

Espera a história não é essa.

Era uma vez uma menina que nasceu no calor tropical de dezembro. Filha única e neta única, ela era a coisa mais importante naquela família. Todos se meteram na sua criação.

A bebezinha foi crescendo e mostrando ser extremamente inteligente. Andou cedo, falou cedo e leu, obviamente, cedo. Os seus feitos eram contados aos vizinhos e amigos.

A menina foi para a escola. Como era de se esperar, as notas mais altas eram dela. Em casa era educada, gentil e responsável. Repassava as lições todos os dias. Ninguém a manda estudar. O fazia por conta própria. Um prodígio de menina.

A menina que crescia ganhava elogios à sua inteligência todos os dias. Na escola, os colegas com dificuldades recorriam à ela. Ela auxiliava a todos. Suas notas permaneciam elevadas. Ganhou bolsa de estudos. Seu pai contava à todos, falava sobre a inteligência e a esperteza da menina.

A menina foi crescendo e outras referências passaram a ter importância. Não queria ser apenas inteligente. Queria ser bonita.

Perguntou à mãe:
_ Sou bonita?
_ Não. Você é inteligente.

Com isso, um decreto caiu sobre sua cabeça. Ela pensou e assumiu: "Sou uma NERD feia". O tempo passou e ela nunca mais tocou nesse assunto. Os elogios à inteligência continuaram.

Ao fazer quatorze anos a menina trocou de colégio. Foi para o ensino médio. Um conjunto de rostos diferentes. Não os conhecia. Ninguém sabia que ela era inteligente. Mas, feia todos veriam. Ficou com medo.

Na primeira semana de aula ainda, ela e os demais alunos novos foram cercados em todos os ambientes da escola. Descobriu que a escola tem quatro castas: professores, auxiliares, veteranos e eles, os calouros. A mais baixa das castas.

No intervalo da primeira sexta-feira letiva, os veteranos começam a selecionar os calouros. Aqueles que eles teriam o prazer de judiar. Arrumados no pátio, os calouros estavam tal qual os negros expostos no pelourinho a espera do comprador. No meio dos veteranos um rapaz se destacou pela simpatia e beleza. Ele caminhou até ela. A separou para ele dizendo: "Essa é a minha namorada. Ninguém toca." E lasca um beijo na boca da ainda menina.

Ela sentiu asco e nojo. Se sentiu exposta como carne no açougue. Foi até ele e o interpelou.
_Porque?
_ Você é a mais bonita. Tem que ser minha.

O odiou pelo seu primeiro beijo ser desse jeito.
O amou por lhe revelar que é linda.


Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em 01/10/2011)