sábado, 24 de dezembro de 2011

Um anjo para mim


Quando eu tinha por volta dos meus 20 anos eu me enamorei.  ... Eu me enamorei por duas mulheres.

Deixa eu me apresentar primeiro, meu nome é... .  Na realidade, meu nome não importa, então deixemos isso para lá. O que importa é quem eu fui e as pessoas que conheci.

Nasci numa família judia. Filho de pai e mãe judia, família influente no bairro de residência, seguia o protocolo. Ia ao templo, jejuava, fazia meus estudos da Cabala e lia diariamente, religiosamente, a Torá.
Minha vida era boa, sendo eu filho único de uma família abastada, nada nunca me faltava. Vivia como era o esperado e mamãe estudava com qual menina judia, frequentadora assídua da sinagoga, ela iria arquitetar meu casamento. Meu pai escrevia o meu futuro, eu iria substituí-lo a frente dos negócios. Seria no futuro o Senhor Meu Pai num novo corpo.

Certo dia, eu conheci Valéria no retorno do colégio, meus olhos brilharam. Ela era tão linda, meiga, gentil, educada. Valéria era tudo que eu queria e precisava. Valéria só tinha um defeito, não era judia. Mesmo assim apresentei-a ao meu pai. Acreditei haver compreensão no core paterno pelo meu desejo de quebrar uma regra tão importante. O judeu é filho de judia. Enfrentei a minha família e pedi, ao pai de Valéria, ela em namoro.

O tempo ao lado de Valéria era doce. Menina de coração puro e bom tinha sonhos de ajudar o mundo. Encantava-me a atenção que ela dispensava a todos que necessitavam. Não tinha criança enjeitada que dela não tinha um abraço. Não tinha idoso sem família que nela não encontrava uma neta. Nem os animais ela os largava a própria sorte. Valéria vê as qualidades nas pessoas ao lhes observar o coração. Via em mim o homem que eu desejava ser: respeitável, amável, pai de família e, acima de tudo, bom.

Logo depois conheci Margareth. Mulher mais experiente e com um filho. Deixei-me enlaçar por uma teia recheada de desejos carnais não antes experimentados por mim.

Fiquei balançado entre a doce Valéria e a caliente Margareth. A luxúria e não a razão me fez escolher a última. Claro que meu pai não apoiou a decisão. De todos os possíveis erros que cometeria na comédia de minha vida esse era sem a menor dúvida o mais gritante, segundo o olhar paterno naquele momento e o meu atualmente.

Uni-me a Margareth, criei seu filho, vivi longe de minha família, adoeci e fui abandonado. Tudo em pouco tempo. Fui deixado em um asilo, um manicômio.

Valéria, àquela quem abandonei, me procurou. Soube por alguém que estava doente. Valéria tomou ciência de minha condição física, psicológica e emocional. Valéria me resgatou do inferno das doenças.

Valéria limpou as minhas feridas, me alimentou, me medicou. Me apaixonei novamente por Valéria. Mas, ela somente tinha olhos para o noivo. Cheguei tarde. Como os jovens de hoje expressam, a fila andou.

Valéria não me abandonou, encontrou a clínica aonde me encontrava internado. Procurou os médicos, rogou por atenção e providências. Conseguiu que uma parenta assumisse a minha condição e os cuidados para comigo.

Hoje, 42 anos depois, estou em condições plenas de funcionamento integral do meu ser. Tenho consciência de tudo que vivi em todas as minhas vidas. Percebo o caminho que deixei de trilhar e o destino de felicidade para qual ele me levaria. Se em vida entendi que perdi a melhor mulher que Deus poderia ter reservado para mim. Na minha morte percebo que me afastei de Deus, me afastando do anjo da guarda que ele me destinou.

Escrevo, agora, do meu novo endereço, uma lápide em um cemitério.

Autor: Simone da Silva Figueiredo
(Escrito em 24 de dezembro de 2011)

sábado, 26 de novembro de 2011

Luiz e Luiza

A estrada que levava à fazenda era bucólica, ladeada de arbustos floridos e oferecia aos viajantes um espetáculo de cores e aromas. A beleza daquele trecho do mundo era tão especial, que mesmo as carruagens aparelhadas com seis bons cavalos diminuiam a sua marcha.

Luiz, um negro que vinha fugindo já há dois meses, caminhava pela estrada tranquilo admirando a beleza que o cercava. Avistou uma casa pequena, sentiu além do aroma das flores o cheiro convidativo do ensopado que estava sendo preparado para o almoço. Não resistiu, resolveu arriscar, a fome era avassaladora, pensou: "A negra velha naquela cozinha há de me ajudar. Ela conhece a minha dor".

Luiz sai da estrada e se direciona à pequena tapera de odor atrativo, vai direto para parte detrás da casa - não queria encontrar com a Sinhá. Ao adentrar a cozinha tem uma surpresa, não encontra uma negra velha à frente do fogão de lenha e sim uma linda e branca jovem.

Luiza era filha única de um pequeno proprietário de terras. Seu pai, viúvo há muitos anos, era o dono de um pequeno sítio sem escravos. Todo o trabalho era feito pelos dois. Luiza devia ter 16 anos, sua pele branca contrastava com o negro dos seus cabelos, lindos olhos amendoados de cílios longos e coloração esverdeada como a esmeralda chamavam a atenção em seu rosto de traços suaves. Ao ver Luiz, a menina-moça se assustou e quase gritou. As mãos de Luiz a impediram.

Luiz ficou paralisado com as mãos sobre os lábios e olhos fixos nos dela. Luiz afogava-se naquele lago de águas esverdeadas e não lutou contra a força que o prendia. Luiza ragiu e Luiz voltou a si. Prometeu soltá-la se não gritasse, ela concordou.

Luiza vivia a maior parte do tempo só. Seu pai trabalhava o dia inteiro. Faziam as refeições juntos, mas não conversavam. Nenhum homem tinha se aproximado tanto do corpo dela. Ela se sentiu zonza com o calor. Ela não conhecia essa sensação, mas gostou.

Luiz há muito tempo não chegava perto de uma mulher e aquela tinha o perfume das rosas da estrada, olhos aonde se podia afogar, o corpo quente e a voz suave. Luiz a beijou.

Luiz e Luiza se entrelaçaram num longo beijo que foi sucedido por outros. Seus corpos se uniram como se Deus os tivesse feito para o amor e esse somente pudesse ser realizado por esses parceiros. Cairam exaustos lado a lado e adormeceram.

Sérgio ficou viúvo muito jovem. Sua esposa faleceu o deixando com uma criança de um pouco mais de um ano. Desde então, se dedicava a criação da filha, aos cuidados com o sítio. As vezes ia à cidade para realizar compras, fazer trocas e desafogar as mágoas na casa das damas. Mas, nenhuma outra mulher foi escolhida como a senhora de sua vida.

Sergio, pai de Luiza, entra na tapera e surpreende os amantes dormindo no chão da cozinha. Parecia que o mundo desabava sob seus pés. Numa fração de segundos retornou ao dia de sua viuvez. Reviu todos os seus dias, todos os sacrifícios para manter o sítio e criar uma filha. Percebeu analisando a cena que a filha não fora forçada. Percebeu que a luxúria tomou conta. Pensou em sua honra, em sua vida e no escândalo. O que tornou seus olhos vermelhos foi pensar em sua honra.

Sérgio pegou a espingarda de caça e atirou na cabeça dos amantes enquanto dormiam. Sérgio atirou em sua própria cabeça.

...

Pelo centro da cidade caminha um rapaz alto e forte. Seu cotidiano frenético é tomado de muitas decisões. Ele caminha pelas ruas cheias de gente apressada falando no seu celular. Sem perceber caminhou para fora da balbúrdia. Olhou em volta e não reconheceu o lugar. Parou de falar ao celular. Sentiu o odor do ensopado vindo de uma taberna convidativa. Percebeu que tinha fome e que não comia tranquilamente há muito tempo. Adentrou a taberna.

A taberna era um restaurante hoje em pleno século XXI, mas no século XIX tinha sido apenas uma tapera com uma triste história de amor assassinado. Servia pratos históricos e a decoração se mantinha a mesma. Ao entrar se via a cozinha.

O rapaz ao entrar se sente transportado no tempo. Vê a cozinheira e seu coração acelera. Tomado de uma emoção completamente nova aproxima-se da cozinheira. Posso lhe falar? Meu nome é Luiz. Ela se vira e responde: Prazer, eu sou Luiza.

Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em 18 e 19 de novembro de 2011)

domingo, 9 de outubro de 2011

Inocência Perdida - Amor encontrado

_ Mamãe, que barulheira é essa tão cedo?
_ Ih, filha! Esqueci de avisar. Os vizinhos novos chegam hoje para ocupar a casa de baixo.

Da janela.
_ Mãe, eles têm tanta coisa. É um casal e tem um menininho com eles. Tão bonitinho parece esperto.
_ Ahammm!
_ Mãe, a moça é bonita. Ela está com uma blusa igual àquela sua.
_ Qual?
_ Aquela florida que a senhora comprou no mês passado.
_ Já sei que é uma moça de bom gosto.
_ Mãe, corre aqui.
_ Que foi, menina?
_ O marido dela é bonitão. Um gato.

As duas olham para o rapaz. A feminilidade presente e a futura apreciam o mesmo espécime.

...

Passa-se as semanas e a rotina se instala novamente. Os novos vizinhos já não são novidade. A vida entra nos trilhos.

A menina pede na segunda, quarta e sexta licença ao rapaz para passar pela área comum das duas casas. Ela precisava chegar à área de serviço. O rapaz está em casa nestes dias e acha tudo normal. O menininho faz uma festa para a menina sempre. Ela é muito paciente e gentil com crianças.

Na casa dos novos vizinhos tudo segue bem. A esposa jovem e bonita sai cedo e volta tarde todos os dias. O rapaz, por ter um horário de trabalho mais flexível, cuida do filho. Leva na creche, vai para o trabalho, busca na creche, faz o jantar. O casal tinha uma vida boa. Isso chamou a atenção.

Na casa de cima, o circo das frustrações encena seu espetáculo habitual. Mãe com três filhos, não tem mais tempo para estar bonita. Pai e marido tem de trabalhar muito para garantir o sustento, não tem mais tempo para ver os encantos da esposa. Filhos, duas crianças arteiras e a mais velha que desperta para a adolescência. O relógio da bomba começa a contagem regressiva.

...

Passa-se semanas e todas as coisas estão no lugar. Não tem mais caixas na sala. O caminho para a creche é feito no automático. A tinta nova já não mais deixa seu cheiro irritante.

A vizinha vem estender a roupa na área comum. É uma menina bonitinha. Meu filho sempre fica muito feliz quando ela chega. Ela sempre brinca com ele cantando músicas que ele gosta. É uma menina nova ainda, acho que tem doze anos, vai ser uma moça linda.

Os vizinhos de cima parecem morar a muito tempo nessa casa. Conhecem todos no bairro. O marido sai cedo e volta tarde, sempre muito cansado. Às vezes trabalha de madrugada. A esposa é bonita, mas não está feliz. Não é fácil cuidar de três sozinha. Eles devem estar casados há muito tempo. Não parecem namorar.

...

Quatro horas.

_ Licença, senhor. Posso estender a roupa. Diz a menina.
_ Claro, esteja a vontade. Diz o rapaz.

...

Mês seguinte, às quatro horas.

_ Licença. Posso estender a roupa. Diz a menina.
_ Claro. Algo mudou em você. Diz o rapaz. O que foi?
_ Não sei, apenas cortei o cabelo.
_ Você fica bem assim. Bonita.

...

A noite, a jovem esposa liga avisando que não virá para casa. Deverá ir à casa de uma tia. Problemas de família à sanar.

Na cama de casal, o rapaz viaja nos pensamentos. A menina é linda. Ela parece uma flor prestes a desabrochar. E sua mente é inundada de pensamentos quentes por aquela jovem.

...

Duas semanas depois, às quatro horas.

_ Tô entrando. Vou estender a roupa.
_ Claro. Posso ver seu rosto. Diz o rapaz.

Ela cora e baixa o semblante. Ele lhe levanta o rosto segurando o queixo. Olhos curiosos o observam. Lábios carnudos o convidam.

Ele a beija. Ela corresponde.

Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em 06/10/2011)

sábado, 1 de outubro de 2011

Uma princesa as avessas.

Era uma vez uma linda menina que nasceu num belo castelo nos Alpes Suíços.

Espera a história não é essa.

Era uma vez uma menina que nasceu no calor tropical de dezembro. Filha única e neta única, ela era a coisa mais importante naquela família. Todos se meteram na sua criação.

A bebezinha foi crescendo e mostrando ser extremamente inteligente. Andou cedo, falou cedo e leu, obviamente, cedo. Os seus feitos eram contados aos vizinhos e amigos.

A menina foi para a escola. Como era de se esperar, as notas mais altas eram dela. Em casa era educada, gentil e responsável. Repassava as lições todos os dias. Ninguém a manda estudar. O fazia por conta própria. Um prodígio de menina.

A menina que crescia ganhava elogios à sua inteligência todos os dias. Na escola, os colegas com dificuldades recorriam à ela. Ela auxiliava a todos. Suas notas permaneciam elevadas. Ganhou bolsa de estudos. Seu pai contava à todos, falava sobre a inteligência e a esperteza da menina.

A menina foi crescendo e outras referências passaram a ter importância. Não queria ser apenas inteligente. Queria ser bonita.

Perguntou à mãe:
_ Sou bonita?
_ Não. Você é inteligente.

Com isso, um decreto caiu sobre sua cabeça. Ela pensou e assumiu: "Sou uma NERD feia". O tempo passou e ela nunca mais tocou nesse assunto. Os elogios à inteligência continuaram.

Ao fazer quatorze anos a menina trocou de colégio. Foi para o ensino médio. Um conjunto de rostos diferentes. Não os conhecia. Ninguém sabia que ela era inteligente. Mas, feia todos veriam. Ficou com medo.

Na primeira semana de aula ainda, ela e os demais alunos novos foram cercados em todos os ambientes da escola. Descobriu que a escola tem quatro castas: professores, auxiliares, veteranos e eles, os calouros. A mais baixa das castas.

No intervalo da primeira sexta-feira letiva, os veteranos começam a selecionar os calouros. Aqueles que eles teriam o prazer de judiar. Arrumados no pátio, os calouros estavam tal qual os negros expostos no pelourinho a espera do comprador. No meio dos veteranos um rapaz se destacou pela simpatia e beleza. Ele caminhou até ela. A separou para ele dizendo: "Essa é a minha namorada. Ninguém toca." E lasca um beijo na boca da ainda menina.

Ela sentiu asco e nojo. Se sentiu exposta como carne no açougue. Foi até ele e o interpelou.
_Porque?
_ Você é a mais bonita. Tem que ser minha.

O odiou pelo seu primeiro beijo ser desse jeito.
O amou por lhe revelar que é linda.


Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em 01/10/2011)

sábado, 17 de setembro de 2011

Cantigas de Roda

Terezinha de Jesus

O Primeiro me chegou como amigo.
Conversamos sobre tudo.
Vivemos aventuras.

O Segundo me chegou como marido.
Planejamos sobre tudo.
Tivemos filhos.

O Terceiro me chegou como amante.
Amamos tudo.
Criamos nada.

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Atirei o pau na outra
Mas, a outra não morreu
Dona Chica admirou-se
Com o estrago que ela fez.

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Fui na Espanha
buscar a minha cabeça
Rosa e vermelho
Da cor do meu coração.
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Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em: 15/09/2011)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Keith

Simone, Claudia e Erica rompem pelo portão da casa de Itaipu. Dezessete, dezesseis e quinze anos de pura eletricidade. Atrás delas a voz forte de Luiz anuncia: "Djalma, chegamos!". Simone é filha de Luiz. Claudia é filha de Cinéa. E Erica é filha de Djalma. As três são além de amigas, primas. Luiz, Cinéa e Djalma são irmãos. E assim inicia-se mais um delicioso final de semana na casa do tio.

Djalma chega atraído pelos chamados e pela balbúrdia que o grupo cria na casa antes silenciosa. Djalma tinha alugado a casa de quatro pavimentos para ele e a terceira esposa – daqui a alguns anos ela virá a ser chamada de Tia Rita apesar de ter apenas um pouco mais de vinte anos. Ele tem mais de duas décadas que ela, mas no coração ambos tem a mesma energia e alegria pela vida. Eles ainda não tinham filhos, mas Djalma tinha três meninas do primeiro casamento (Andréa – 17, Erica – 15 e Adriana – 11) e dois meninos do segundo (Henrique – 9 e Guilherme – 17). A casa tinha de ser grande, sua família é grande.

Luiz retira Djalma dos pensamentos.

_ Mano, aonde coloco as coisas para o churrasco?
_ Dê a Rita. Ela está na cozinha.

Djalma olha para as meninas e grita:
_ Erica! Venha abraçar o papai. Simone e Claudia venham com o tio. Cadê a Adriana?
_ Tio, ela está dormindo no carro. Meu pai já vai buscá-la.

Adriana chega correndo.
_ Acordei.

Djalma estão anuncia:
_ Tenho uma surpresa para vocês. Venha Luma!

Nisso adentra no pátio superior um pastor alemão manto negro enorme. Coloca as duas patas no peito de Djalma e lhe lambe a face. Djalma é um homem negro, forte de 1.80 m de altura. A cadela se aproxima de nós. Ficamos com medo.

E Djalma diz:
_ Ela é de vocês. Podem brincar a vontade. Ela é mansa.

E foi assim que conheci a mãe da minha primeira filha. Alguns anos depois ganhei a Keith de Luma. Próximo do meu aniversário de 23 anos.

Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em 09.09.2011
fato ocorrido em algum final de semana entre 1987 e 1988)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um anjo em minha vida

Simone saía todos os dias da faculdade. Na intenção de apressar o seu retorno, sempre pegava carona. Certa noite, uns colegas de classe ofereceram carona para próximo da sua casa. Teria ainda de pegar uma condução. O que Simone não sabia é que a linha de ônibus pretendida tinha o último horário muito cedo.

Desceu do carro e seus colegas continuaram no caminho. Tomou a direção da parada de ônibus, ao chegar perguntou aos demais sobre a condução que desejava. Teve a triste notícia que o último carro havia passado à meia hora. Ninguém sabia lhe informar como chegava a sua residência. Com o adiantado da hora começou a temer pela sua segurança.

Simone começou a olhar à esmo. Em seus olhos uma lágrima teimava em sair. Então, ela reza. Declama baixinho o Salmo 23 e pede à Deus que acampe os seus anjos ao seu redor, como a avó havia lhe ensinado. Suas preces não chegaram ao fim quando ela avistou um rapaz alto, forte e moreno se aproximando. Ele estava vestido de branco e carregava uma pequena valise. Chegou se apresentando.

_ Boa noite, Simone. Meu nome é Marcelo. Posso lhe ajudar?

Atônita, Simone responde:

_ Obrigada. Você sabe que ônibus eu posso pegar? Preciso ir para casa.

Conversaram e ela lhe explicou onde residia e que fazia faculdade. Ele lhe contou que era estudante de medicina na mesma Universidade que ela e que estagiava na unidade local dos "Anjos do Asfalto". Não tardou e outra condução chegou. Ela agradeceu e partiu. Ele parecia vigiá-la.

No dia seguinte, ela resolveu procurá-lo no hospital da faculdade. Queria muito lhe agradecer por tê-la mantido calma e a feito chegar em segurança na sua casa. E como ele havia dito que era seu dia de plantão, calculou que isso não seria um problema.

Procurou-o na unidade de traumatologia. Recebeu uma notícia chocante. Marcelo morreu há alguns meses. Ele estagiava na unidade dos "Anjos do Asfalto" e era um excelente aluno.

Simone entendeu. Marcelo foi o anjo enviado por Deus.


O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.

Senhor, Meu Deus, estou com muito medo. Acampe seus anjos ao meu redor. E, por favor, dê ordens a eles para que cuidem de minha segurança.

Pai nosso, que estais no céu. Santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai os nossos pecados e não nos deixeis cair em tentação.

Amém

Autor:
Simone da Silva Figueiredo
(escrito em 09.09.2011
fato ocorrido em 1994)